Naquele lugar, o tempo não marcava horas. Os relógios que serviam mediam o peso das ausências. Os ponteiros da saudade não tinham medida, nem conta. A mulher contemplava, em suas mãos, o delicado fio de missangas. O artesanato era seu modo de rezar. Quando as contas deslizavam por entre os dedos, ela se sentia aliviada do peso do peito.
— Você reza muito, mãe?
— Não rezo, filho. Estou fiando minha vida.
O rapaz não entendeu. Mas sentou-se para escutar. A mãe, com voz de afago, explicou que cada conta representava um momento, uma pessoa, uma lembrança. O fio era sua própria biografia. Era assim que as mulheres da sua terra contavam histórias: fiando, bordando, tecendo o tempo.