O Fio das Missangas - Conto

Da coletânea homônima

Escrito na noite de 09 de Junho de 2024 em Maputo
Selo LIVRE DE IA
Conto Memória África

Mia Couto

@mia

Escritor moçambicano, biólogo e um dos maiores nomes da literatura africana de língua portuguesa. Sua obra reinventa o idioma com neologismos e explorações poéticas, retratando Moçambique com lirismo e crítica social.

Naquele lugar, o tempo não marcava horas. Os relógios que serviam mediam o peso das ausências. Os ponteiros da saudade não tinham medida, nem conta. A mulher contemplava, em suas mãos, o delicado fio de missangas. O artesanato era seu modo de rezar. Quando as contas deslizavam por entre os dedos, ela se sentia aliviada do peso do peito.

— Você reza muito, mãe?

— Não rezo, filho. Estou fiando minha vida.

O rapaz não entendeu. Mas sentou-se para escutar. A mãe, com voz de afago, explicou que cada conta representava um momento, uma pessoa, uma lembrança. O fio era sua própria biografia. Era assim que as mulheres da sua terra contavam histórias: fiando, bordando, tecendo o tempo.

Modo Foco

PDF

Referência BibTeX

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Referência ABNT

COUTO, Mia. O Fio das Missangas - Conto: Da coletânea homônima. Plataforma Livre Dia, 09 jun. 2024. Disponível em: <https://livredia.com.br/texto/725/>. Acesso em: 29 2026.

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