Veado ferido

um ensaio sobre dor e poesia

Escrito na tarde de 24 de Março de 2026
Selo LIVRE DE IA
Doença
Apoie

Monalisa Gomyde

@monalisa

Pesquiso literatura de autoria feminina, cinema e coisas de lésbica. Poeta nas horas erradas e cronicamente maravilhada por alguma coisa ou outra, ainda que pessimista.

O Veado Ferido: Qual o Significado da Obra de Frida Kahlo? – Decorem

O silêncio da dor

No texto O Narrador, Walter Benjamin menciona brevemente o fato de que os soldados retornavam mudos do campo de batalha ao fim da primeira guerra mundial. A experiência da guerra não os enchia do que contar, e sim do contrário, ficavam “pobres de experiência comunicável” (Benjamin, 2012, p.198). Viver com doenças crônicas ou prolongadas nos deixa também pobres de experiência comunicável. Há uma escassez de linguagem assustadora considerando que a dor física é uma experiência universal. Ficamos mudas (e quase surdas). Não por não termos vivido nada, mas por não conseguirmos dar testemunho do que foi vivido. E aí reside a solidão existencial da pessoa doente. Existe um problema no falar e existe um problema no ouvir e no meio desses dois campos, constituintes da relação fundamental possibilitada e mediada pela linguagem, cresce o desencontro e mingua a humanidade daquela que se vê impossibilitada de dizer, de ser compreendida e de se reconhecer enquanto pessoa. Talvez o maior brilho e esplendor que a linguagem possa alcançar, sua verdadeira magia, esteja em superar esse abismo de silêncios. Será que a poesia pode ultrapassar o silêncio específico da doença e da dor física? 

Desde criança mantenho diários, cadernetas com observações e versos soltos. Em 2017, o ano em que adoeci, meus cadernos emudeceram. Depois de meses em branco, encontro essa anotação: “Não há ar para os pulmões. Não há descanso para o corpo. É como correr correr correr tentando achar a saída de um túnel que nunca chega, só se torna mais e mais estreito. A mente se descola e se dissolve. A dor destrói a língua. Dói em todo lugar.” Em seguida, mais meses em branco, uma página rabiscada e depois isso: “Um cansaço me inunda e sinto meus ossos afundando nessa água pantanosa e meus pés ficam presos em plantas meio vivas meio mortas e não há lugar no qual eu possa deitar-me, tudo é água musgosa.” Busco a data e vejo que esse último trecho eu escrevi após a segunda rodada de Metotrexato, uma medicação imunossupressora. Eu me lembro, em rasgos de memória, que a medicação me fazia vomitar, mal conseguia ficar em pé, a pele queimava e não conseguia me deitar, pois meu corpo ficou coberto de feridas. Mas nada disso está visível nessas linhas, elas narram a incapacidade de escrever tamanha dor e não a dor em si.

A incapacidade de manipular palavras para me expressar foi um segundo ataque à minha dignidade humana, o primeiro foi a dor e a doença. Não esperava por ele. Elaine Scarry escreve em seu primoroso livro sobre dor e linguagem, The Body in Pain, “a dor física não só resiste à linguagem, mas ativamente a destrói, trazendo uma reversão imediata a um estado anterior à língua, uma reversão aos sons e choros que um ser humano emite antes da linguagem ser aprendida.” (Scarry, 1987, p.6) Ela nos explica que todas as outras sensações e sentimentos, especialmente os abstratos, têm um objeto externo ao qual se direcionam, amamos algo ou alguém, sentimos saudades de algo ou alguém, mas a dor física é essencialmente interna, ela resiste à objetificação verbal necessária para que seja possível dizer. O sofrimento psicológico permeia as páginas de todos os livros, mesmo que sintamos dificuldade em expressá-lo em certas circunstâncias, ele é por natureza referenciável e suscetível à objetificação verbal. Ao pensarmos no sofrimento físico, cru em sua inegável materialidade, nos deparamos com a dificuldade em encontrá-lo nas páginas dos livros. É uma obviedade inescapável para quem o sente e uma dúvida facilmente ignorada por quem não o sente. Simultaneamente uma experiência universal e a mais solitária de todas. 


A dor reconhecida

A primeira vez que reconheci minha dor em algo para além de mim foi na música In the red, da artista experimental Jenny Hval. A música é curta, dois minutos e vinte segundos ao longo dos quais escuta-se a respiração acelerada de Jenny envolta por sons ritmicamente ansiosos, por passos e barulhos e, então, sozinha. A sensação é de um desespero angustiante e vermelho, a cor sugerida pelo título em um movimento sinestésico invade a música que, enfim, termina com uma única frase: “It hurts everywhere”. A segunda vez foi quando fui capturada por uma pintura de Frida Kahlo que já conhecia há anos, mas nunca realmente tinha sentido em meu âmago, O veado ferido, de 1946. Nela vê-se um autorretrato de Frida no qual seu corpo é o corpo de um veado atingido por lanças, vê-se o sangue e o mesmo desespero angustiante de In the Red inunda o olhar de Frida. A música e as artes visuais conseguiram transpor a clausura ontológica do sofrimento físico, ao fruí-las era possível mergulhar nas sensações de outrem e nelas encontrar as minhas indizíveis sensações e assim nossas dores se faziam compartilhadas. 

O alívio foi imenso, pois a vida da pessoa doente e com dor é reduzida pelo único discurso autorizado a dizê-la, o discurso biomédico, que aliena a pessoa de seu próprio corpo e, na maioria das vezes, especialmente em relação às mulheres, recusa validar a enormidade de sua dor. Mas ainda faltava algo, faltava eu ser capaz de falar. Porém, a alienação começava a ser quebrada, a socialização da experiência da dor experimentada na fruição dessas obras começava a me transformar novamente em pessoa. Enfim, chegou a poesia. Lembro-me de ler o poema à meia-luz no livro Desglaç/Degelo, de Maria-Mercé Marçal, que eu acabará de ganhar, o que atraiu-me a ele foi a dedicatória “Homenagem a Frida Kahlo”:  


De onde vem, de qual entranha, essa força,

se arrebenta as paredes da estrutura

que me centra, se estilhaça a coluna

de pedra que me vertebra? De onde, a força

que em gesso me molda, me solda, me escora

rigidamente, me encouraça de aço?

Pregos, agulhas me fixam a pele morta

sobre a carne acesa que não tolera o ar.

E através dos furos só sei já viver

nesse sangue que escapa além de mim.

(Marçal, 2019, p.69)


A poesia surgiu, então, dentro do universo da palavra como local privilegiado do reconhecimento da dor. Um caminho para a restauração da ponte com o mundo. E para quem está perdida, um caminho é tudo. Como escreve Jean-Luc Nancy, o caminho, a via, o acesso é o mais difícil; é qualidade essencial do acesso que seja difícil e é exatamente aquilo “que não se deixa fazer” (Nancy, 2013, p.417) que a poesia faz. Ana Cristina Cesar, no poema Fragmentos, refere-se à poesia como “aventura de registrar a fenda” (Cesar, p.360, 2013). Nos versos de Maria-Mercé Marçal em homenagem à Frida, a fenda registrada é a fenda de sentido causada pela dor. A poeta usa um artifício que Elaine Scarry reconhece como central na descrição da dor por pacientes aos seus médicos, imagens de armas, de objetos afiados e cortantes (Scarry, 1987, p.13). Como a dor física é visceral, tão inegavelmente interna que repele qualquer objetificação verbal, resta alocar a dor ela mesma em uma ferramenta que a infrinja. Pregos, agulhas, gesso, algo que estilhaça, algo que arrebenta as estruturas. E a poeta pergunta, até mais, ela clama por uma resposta à questão que toda pessoa que sofre repete desde início do mundo e provavelmente até o seu fim: Por que? Por que essa dor? Por que eu? De onde vem essa força? A pergunta reverbera no poema e, assim, ele é o acesso. Fez-se a ponte. “A dificuldade é posta, apresentada por aquilo que ela é e estamos empenhados nela” (Nancy, 2013, p.417).


A dor escrita


Em uma madrugada de 2019 eu escrevi o primeiro poema pós-adoecimento.


acordei tudo é dor

a mente explode

ahhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhh

explosões choques 

talvez eu trema talvez eu chore

já não sei dizer o que acontece 

colapso

não se diz 

se chora se geme se grita 

acordei pedaços de mim estão perdidos

grudados no lençol

não mais em mim 

constelações de mim perdidas ao longe

sou feita de buracos

de faltas

me perguntei olhando no espelho meu corpo devastado 

eu sempre li muito

uma densa educação sentimental



a dor

ah a dor destrói

o literal feito em carne 

retorno da pessoa ao berço da humanidade 

grito primordial que anuncia

estou viva 

uma ilha 

Estou viva! e sozinha


acordei senti levantei e lá estava a pele da minha bochecha direita grudada no travesseiro 

eu gritei 


tornei-me animal


para além




Se testemunhar essa reversão aos choros e gemidos que a dor opera é testemunhar a destruição da linguagem, inversamente, testemunhar a saída do estado de pré-linguagem, ao que a pessoa que sente a dor física consegue projetar os fatos da senciência na fala (ou na escrita), é testemunhar o nascimento da linguagem (Scarry, 1987, p.6,). Assim como eu havia presenciado a morte da linguagem, finalmente presenciei seu nascimento. Não sei se ela nasceu quando escrevi o poema ou quando o li num sarau feminista e uma das mulheres presentes me abraçou e disse "obrigada" molhando meu pescoço com suas lágrimas. Para quem sente a dor, ou o mundo é eclipsado ou a dor ela mesma se torna o mundo inteiro. Se a dor física destrói a catexia entre o corpo e o mundo (linguagem) — como então se escreve a dor? Na jornada do estado de pré-linguagem causado pela dor em direção ao renascimento da linguagem, ao expressar essa dor, que pontes auxiliam a peregrina? Para mim essa ponte foi a poesia. 

Ela surgiu como local privilegiado dessa fala, dessa fala fresca e renascida daquela que visitou o escuro útero sem língua. Um local no qual a palavra ainda está próxima do silêncio e do grito originais. Um local no qual a intensidade da vida paralisa a palavra e paradoxalmente clama por ela. Empresto as palavras de Michel Collot para narrar — lindamente, poeticamente — esse nascimento: 

O germe do poema reside frequentemente para mim em uma sensação ou uma emoção cuja intensidade me paralisa, e me corta a palavra. Interna ou externa, e mais frequentemente uma coisa e outra, ela me confronta com o duplo enigma da presença do mundo e da minha presença nele. No espanto de estar aí, desdobra-se um espaço ao mesmo tempo cósmico e cenestésico: aquele de meu corpo unido à carne do mundo, em uma espécie de empatia (Einfühlung), onde o interior e o exterior são indissociáveis. Somente depois, e às vezes ao termo de um longo período de esquecimento, na relembrança ou na ressurgência da memória involuntária, é que posso empreender a exploração desse espaço que escapa ao olhar e à palavra.

Para isso, convém que eu mergulhe às cegas na noite do corpo e na espessura da língua para reaprender a falar. Muito frequentemente as primeiras palavras se impõem a mim com a mesma força da sensação que elas tentam exprimir e da qual parecem inseparáveis, como tantos pequenos pedaços de matéria-emoção. Elas me dão a nota fundamental, onde ressoa a tonalidade afetiva que colore ao mesmo tempo a emoção, o mundo e as palavras. Mas para dar-lhe a ouvir e compreender, devo tentar desdobrar as harmônicas e os horizontes. É interrogando sua ressonância musical, afetiva e significativa ao mesmo tempo que tento decifrar a obscura mensagem da qual são portadoras. (Collot 2015, p.23-24)


Para dizer tchau tchau

Susan Sontag defendeu bravamente seu argumento contra metaforização da dor, do seu lugar de sofrimento físico causado por um câncer ela aconselhava a todas nós, habitantes do mundo da doença, como ela o chamava, a não cairmos na tentação de transformar nossa doença e o sofrimento proveniente dela em metáforas para outras coisas. Vejo em sua defesa um ímpeto de não permitir a relativização do sofrimento físico, sua diluição em jogatinas discursivas e também um desejo de se manter fiel a crueza da doença e da dor, pois aquilo que some no discurso, some da política e assim somem aquelas que sofrem.

Anos antes da publicação de A Doença como Metáfora, em 1965, ela já escrevia em seu diário: “Dor não pode ser convertida em outra moeda. Não existe moeda em que a dor pessoal possa ser convertida” (Sontag, 2016, p.152). Ela estava correta, a dor cessa a produção e, segundo Virginia Woolf, a doença carrega consigo a força de libertação das verdades que o mundo da saúde e dos supostamente saudáveis parece não ver (Woolf, 1964, p.17). A doença e a dor libertam a verdade de que no final somos todos animais de carne e sangue e osso e que o destino do corpo é inescapável, algo assustador em uma sociedade assolada pelo capitalismo avançado, na qual produtos ganham status de pessoa e pessoas são reduzidas à máquinas produtoras de lucro alienadas de si mesma e de seu trabalho. Lembro-me de outra coisa que, assim como as doentes, é dita inútil, a poesia. A dor não pode ser convertida em moeda, mas ela pode em sua extrema dificuldade surgir parecendo fácil em poesia. Desafiando o tempo e a lógica capitalista, desafiando a objetificação dos seres, desafiando os abismos de silêncio, fazemos poesia. A falta de vocabulário para expressar em palavras a dor resulta na invisibilidade de quem a sente, uma invisibilidade com consequências gravíssimas. Logo, expressar verbalmente a dor física é o prelúdio necessário para a tarefa coletiva de diminuir a dor no mundo (Scarry, 1987, p.9). Já prevejo o questionamento: “mas, através da poesia, o que se pode alcançar?” E respondo: um caminho. 


Galera que eu citei

BENJAMIN, Walter. O Narrador: Considerações Sobre a Obra de Nikolai Leskov. In: Obras escolhidas I. Ed. Brasiliense, 2012

CESAR, Ana Cristina. Poética. São Paulo: Cia das Letras, 2013.

COLLOT, Michel. Poesia, paisagem e sensação. Rev. de Letras, n. 34, vol. 1, jan./jun. - 2015, pp. 17-26.

MARÇAL, Maria-Mercè. Desglaç/Degelo. Ed. Urutau, 2019.

NANCY, Jean-Luc. Fazer, a poesia. Tradução de Mauricio Mendonça Cardozo. Alea, Rio de Janeiro, vol. 15/2, 2013.

PORGE, Erik. A voz do eco. Mercado de Letras, 2014.

SARTI, Cynthia. Corpo e doença no trânsito de saberes. Rev. bras. ciênci. soc., São Paulo, v.5, 2010. Disponível em <http://socialsciences.scielo.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0102-69092010000100009&lng=en&nrm=iso>. Acesso em 28 Dec. 2020. 

SCARRY, Elaine. The Body in Pain: The Making and Unmaking of the World. Oxford University Press, 1987.

SONTAG, Susan. Diários II: 1964-1980. Cia das Letras, 2016.

______________. Doença como metáfora / AIDS e suas metáforas. Rio de Janeiro: Cia das Letras, 2007.

WOOLF, Virginia. The moment and other Essays. London: Hogarth Press, 1964.

Modo Foco

PDF

Referência BibTeX

@online{gomyde_veadoferido_2026,
  author       = {Monalisa Gomyde},
  title        = {Veado ferido},
  subtitle     = {um ensaio sobre dor e poesia},
  date         = {2026-03-24},
  organization = {Plataforma Livre Dia},
  url          = {https://livredia.com.br/texto/749/},
  urldate      = {2026-10-29}
}

Referência ABNT

GOMYDE, Monalisa. Veado ferido: um ensaio sobre dor e poesia. Plataforma Livre Dia, 24 mar. 2026. Disponível em: <https://livredia.com.br/texto/749/>. Acesso em: 29 2026.

Gostou deste texto? Apoie e incentive este trabalho fazendo um PIX diretamente para quem escreveu! Se você decidir contribuir, saiba que ele será 100% enviado para a conta indicada por Monalisa Gomyde!

QR Code PIX

Escanear QR Code

💡 Cole no app do seu banco

BENEFICIADO: MONALISA ALMEIDA CESETTI GOMYDE
BANCO DO BENEFICIADO: NU PAGAMENTOS - IP
A tela do PIX no app do seu banco abrirá sem um valor definido, doe o que o seu coração mandar ❤️

Comentários

Como funcionam os comentários neste texto

A autora deste texto definiu as seguintes preferências para comentários. Essas configurações são individuais para cada texto publicado:

  • Aprovação automática ativada: Seus comentários serão publicados imediatamente após o envio, sem necessidade de revisão prévia da autora. Todos os leitores poderão vê-los instantaneamente.
  • Identificação obrigatória: A autora requer que todos os comentários sejam identificados. Não será possível comentar anonimamente neste texto. Seu nome será sempre exibido junto ao comentário.

Você precisa estar logado para comentar.

Seja o primeiro a comentar este texto!

Cartão da Biblioteca
Livre Dia

💛 Obrigado pelo interesse em assinar o cartão!

Este processo é autenticado e garante que foi você quem assinou, demonstrando seu apreço genuíno por este texto.

Por isso, uma vez assinado, não pode ser desfeito.

Nome Completo ID (@) Data
Este cartão ainda não possui assinaturas. Seja o primeiro!

💛 Faça login ou cadastre-se para assinar este cartão

Para deixar sua assinatura e demonstrar seu apreço por este texto, você precisa ter uma conta no LIVRE DIA.

💛 Muito obrigado! Sua assinatura foi registrada

🎉 Parabéns!

Sim, vamos lá!

O que é Domínio Público?

Domínio público refere-se a todas as obras que não estão mais protegidas por direitos autorais patrimoniais, permitindo que qualquer pessoa as utilize livremente, sem necessidade de autorização ou pagamento ao autor ou seus herdeiros.

Legislação Brasileira

De acordo com a Lei nº 9.610/98 (Lei de Direitos Autorais), artigo 41, os direitos patrimoniais do autor perduram por 70 anos, contados a partir de 1º de janeiro do ano seguinte ao seu falecimento. Após esse período, a obra entra em domínio público.

É importante destacar que mesmo quando uma obra entra em domínio público, os direitos morais do autor são perpetuados, ou seja, a autoria e a integridade da obra devem sempre ser respeitadas e preservadas.

Importante

O Estado é responsável por defender a integridade e autoria de obras em domínio público. Mesmo sendo de livre uso, é fundamental respeitar a autoria original e não modificar a obra de forma que descaracterize seu conteúdo ou intenção original.