Primeira Parte - I
Policarpo era patriota. Desde moço, aí pelos vinte anos, o amor da pátria tomou-o todo inteiro. Não fora o amor comum, palrador e vazio; fora um sentimento sério, grave e absorvente. O que o patriotismo o fez pensar, imaginar, foi um mundo de coisas, de uma extravagância rara...
Não se salientou, nunca escreveu, nunca fez uma conferência; mas as suas horas, fora das do emprego, eram consumidas em estudos sobre o Brasil. Geografia, economia, etnografia, história, política, tudo isso o ocupava, principalmente a história.
Policarpo nunca foi militar: foi subsecretário no Arsenal de Guerra, onde ganhou o cartacho de major. Tinha cursado o Colégio Pedro II e feito a Escola Politécnica; mas, desde muito novo, a burocracia o atraíra.
A sua vida decorrera quieta e tranquila, na cidade e no subúrbio, entre a repartição e a casa; a casa e a repartição. Não fizera a política; na rua não era homem de cumprimentos e salamaleques; e, deste modo, pouco conhecido, vivia modestamente há muitos anos, num vasto e sombrio casarão de sua propriedade.
Foi aos quarenta anos que Policarpo resolveu que o seu patriotismo não era suficiente. Faltava-lhe um conhecimento prático das coisas do Brasil; e começou por empenhar-se no conhecimento da língua nacional.
Comprou gramáticas, tratados especiais, obras de linguística... Chamou professores, correspondeu-se com literatos... E ia de coração jubiloso! O ânimo voava, pensava em sonhos... Se conseguisse levar a Academia a adotar o tupi-guarani como língua oficial e literária do Brasil! Que vitória!
Imaginava a doçura e a majestade que ela daria ao idioma! Estava convencido do que faria, se as suas ideias triunfassem: sanearia o idioma de estrangeirismos, e as nossas letras ficariam com uma feição especial, com um cunho de brasilidade!
Foi com tal disposição de espírito que escreveu à Academia pedindo que adotasse o tupi-guarani como língua oficial do Brasil, substituindo o português. A carta era longa e tinha a sua filosofia. Começava com uma ligeira história das invasões da língua portuguesa no Brasil; pintava os males que daí tinham provindo para a literatura nacional; e demonstrava com abundância de argumentos as vantagens que resultariam da adoção da língua indígena.
Primeira Parte - II
A resposta não veio logo; mas veio. Foi um dia que o major, ao chegar em casa, encontrou o envelope amarelo da Academia num canto da mesa da sala de jantar. Não se conteve. Quis abri-lo logo; mas adiou para depois do jantar.
À mesa, nem a madrinha Adelaide, nem a filha, Olga, perceberam a sua agitação. Policarpo disfarçou. Comeu desatento, mastigou maquinalmente, parecendo completamente ausente da mesa e da família.
Acabado o jantar, foi para o gabinete. Fechou a porta à chave, acendeu o candeeiro, sentou-se em uma cadeira e abriu a carta. Que desilusão! A Academia recusava a proposta! Não fundamentava a recusa: dizia apenas que a medida era inoportuna e precipitada.
Policarpo ficou aterrado. Pálido, imóvel, com os olhos esbugalhados, parecia petrificado na cadeira. Por um momento pensou que estava a sonhar. Releu a carta. Era aquilo mesmo. Recusavam!
Ficou assim longamente. A irmã bateu à porta — não respondeu. Bateu mais forte — nem ouviu. A madrinha Adelaide acudiu:
— Que tem você, Quaresma?
— Nada — disse ele. — Nada. Estou aqui lendo.
Mas não estava lendo. Estava de olhos fitos no espaço, enxergando um belo sonho que se desfazia...
Primeira Parte - III
Além da mania de língua, Policarpo tinha outra: era a do violão. Não tocava mal o instrumento, mas fazia questão de estudar música brasileira, coisas do povo, modinhas, lundus.
De vez em quando, dava concertos em casa, para a família e alguns vizinhos. Executava as suas peças prediletas com amor e melancolia. O violão gemia saudoso; e a voz do major saía grave, profunda, soturna, cheia de um sentimento de dor e de desalento.
Tudo isso causava espanto e riso aos circunstantes. Como um homem importante, subsecretário, major honorário, tinha semelhantes habilidades e gosto por músicas que nem os negros gostavam mais?
Policarpo nunca se importou com isso. Seguia tranquilo o seu caminho. Tinha a convicção de que era preciso estudar as coisas brasileiras, ir às fontes, conhecer os elementos da pátria, a fim de fazer dela uma nacionalidade vigorosa e distinta.
Foi com tal pensamento que começou a fazer pesquisas sobre a cultura agrícola do Brasil. Leu, estudou, anotou; e chegou à conclusão de que a lavoura brasileira estava completamente errada.
As culturas eram exóticas, os processos rotineiros, o aproveitamento do solo péssimo. Era preciso mudar tudo, voltar à terra, plantar produtos nacionais, aproveitar os frutos nativos.
Tinha um sítio nos arredores da cidade — o famoso "Sossego" — e decidiu transformá-lo num modelo de agricultura brasileira. Deixaria a repartição, dedicar-se-ia inteiramente à lavoura racional, daria o exemplo, provaria que o Brasil, bem cultivado, era riquíssimo!
Segunda Parte - I
Policarpo requereu a sua reforma. Tinha trinta anos de serviço, direito estava mais do que assente. Obteve-a sem demora e foi para o seu sítio "Sossego", disposto a fazer dele um exemplo de exploração agrícola racional e brasileira.
Logo que chegou, tratou de organizar o seu plano de trabalho. Dividiria as terras em canteiros; cada um deles seria destinado a um produto nacional. Aqui a mandioca; ali o milho; acolá o feijão; mais adiante a batata-doce...
Policarpo estava entusiasmado. Levantava-se ao romper do dia, percorria os canteiros, fiscalizava os trabalhadores, anotava as observações. Tudo fazia com método, com regularidade, com aquela tenacidade calma e tranquila que era o fundo do seu caráter.
Os vizinhos achavam-no doido. Um homem reformado, que tinha o seu dinheirinho, podia viver descansado na cidade; e vinha para o mato, para o trabalho, para a labuta dura da agricultura!
— Não é doido? diziam uns.
— É original, diziam outros.
Mas Policarpo não ouvia nada. Estava absorvido no seu ideal. Provaria que o Brasil era riquíssimo; que bastava cultivar com inteligência e método para se obter tudo da terra generosa.
Passaram-se os meses. A plantação ia crescendo. Policarpo consultava os livros, seguia as regras, aplicava os processos. Tudo parecia correr bem.
Mas, de repente, começaram as dificuldades. As formigas invadiram os canteiros e devastaram a plantação. Policarpo lutou contra elas com todos os processos conhecidos: formicidas, fogo, inundações. Nada! As formigas resistiam, voltavam, multiplicavam-se.
Depois vieram outras pragas: lagartas, pulgões, bichos de toda espécie. Policarpo não desanimava. Estudava, lia, escrevia para especialistas, aplicava novos processos. Mas o resultado era sempre o mesmo: fracasso.
Para cumular a desgraça, vieram as secas, depois as chuvas torrenciais que arrasavam tudo. A terra, mal cultivada durante anos, não respondia ao esforço. As colheitas eram miseráveis.
Policarpo começou a sentir a derrota. O dinheiro ia acabando; as dívidas aumentavam. Mas ainda lutava, ainda esperava. Uma safra boa, uma colheita abundante, e tudo estaria salvo!
Segunda Parte - II
A madrinha Adelaide vinha visitá-lo de vez em quando. Ficava penalizada ao vê-lo magro, tostado pelo sol, com as mãos calejadas pelo trabalho. Olga, a afilhada, chorava.
— Você está se matando, Quaresma, dizia a madrinha. Deixe isso! Volte para a cidade!
— Não posso, madrinha, respondia ele. Não posso abandonar agora. Seria uma deserção. Tenho que provar que o Brasil é rico, que a nossa terra é boa!
E continuava. Mas o sítio "Sossego" tinha-se transformado num inferno. Dívidas, execuções, penhoras. Os credores não davam tréguas. Policarpo vendia as alfaias, os móveis, tudo para pagar.
Uma noite, sentado à porta da casa, contemplando o seu sonho destruído, Policarpo chorou. Chorou como criança, com soluços fundos. Não era pelo dinheiro perdido; era pela ilusão destruída, pela demonstração que não pudera fazer, pelo Brasil que continuaria sendo julgado pobre e imprestável.
No dia seguinte, teve que abandonar o "Sossego". Não tinha mais com que se manter. Voltou para a cidade, derrotado, humilhado, pobre. O patriota visionário tinha fracassado.
Terceira Parte - I
Policarpo voltou para o casarão da cidade. Estava velho, abatido, sem forças. A derrota na agricultura o tinha acabado moralmente e fisicamente.
Os amigos rareavam. Poucos o visitavam. A madrinha Adelaide e Olga eram quase as únicas companhias. Vivia mergulhado em profunda melancolia, repassando o passado, relembrando os sonhos que tivera.
Foi nessa época que rebentou uma revolução. Policarpo, com o seu patriotismo inalterável, quis servir à pátria. Ofereceu-se ao governo. Seria o que fosse preciso: soldado, conselheiro, qualquer coisa!
O governo aceitou. Policarpo foi nomeado para um cargo de confiança: deveria organizar a defesa de um setor da cidade contra os revolucionários.
Lançou-se à tarefa com a energia que lhe restava. Organizou, planejou, executou. Mas logo percebeu que não era a pátria que estava em jogo; eram as ambições, os interesses, as vinganças pessoais.
Viu horrores: execuções sumárias, prisões arbitrárias, violências de toda espécie. Horrorizou-se. Aquilo não era patriotismo; era barbarismo!
Tentou protestar. Escreveu ao ditador expondo os abusos, pedindo moderação, humanidade. A resposta foi a prisão. Policarpo foi preso como traidor, como revolucionário, como inimigo da pátria!
Terceira Parte - II
A prisão foi o golpe final. Policarpo, sempre fraco de saúde, não resistiu ao regime carcerário. Adoeceu gravemente. Febre, delírios, prostração.
A madrinha Adelaide conseguiu visitá-lo uma vez. Não o reconheceu. Estava esquelético, com os olhos fundos, a barba crescida. Parecia um moribundo.
— Quaresma! Meu Deus! O que fizeram com você?
Ele mal podia falar. Disse apenas:
— A pátria... a pátria, madrinha... onde está a pátria?
Dias depois, Policarpo Quaresma morreu na prisão. Morreu louco, ou quase louco, sem entender por que o patriotismo que o animara toda a vida o tinha levado àquele triste fim.
A madrinha Adelaide conseguiu o corpo. Enterrou-o modestamente. Poucos acompanharam o enterro. Policarpo morreu como vivera: incompreendido, ridicularizado, julgado louco.
Mas talvez não fosse louco. Talvez fosse apenas um sonhador, um idealista que acreditara demais na pátria, que quisera servi-la sinceramente, sem interesses, sem ambições.
E a pátria, como sempre, o devorou.
FIM