
O silêncio da dor
No texto O Narrador, Walter Benjamin menciona brevemente o fato de que os soldados retornavam mudos do campo de batalha ao fim da primeira guerra mundial. A experiência da guerra não os enchia do que contar, e sim do contrário, ficavam “pobres de experiência comunicável” (Benjamin, 2012, p.198). Viver com doenças crônicas ou prolongadas nos deixa também pobres de experiência comunicável. Há uma escassez de linguagem assustadora considerando que a dor física é uma experiência universal. Ficamos mudas (e quase surdas). Não por não termos vivido nada, mas por não conseguirmos dar testemunho do que foi vivido. E aí reside a solidão existencial da pessoa doente. Existe um problema no falar e existe um problema no ouvir e no meio desses dois campos, constituintes da relação fundamental possibilitada e mediada pela linguagem, cresce o desencontro e mingua a humanidade daquela que se vê impossibilitada de dizer, de ser compreendida e de se reconhecer enquanto pessoa. Talvez o maior brilho e esplendor que a linguagem possa alcançar, sua verdadeira magia, esteja em superar esse abismo de silêncios. Será que a poesia pode ultrapassar o silêncio específico da doença e da dor física?
Desde criança mantenho diários, cadernetas com observações e versos soltos. Em 2017, o ano em que adoeci, meus cadernos emudeceram. Depois de meses em branco, encontro essa anotação: “Não há ar para os pulmões. Não há descanso para o corpo. É como correr correr correr tentando achar a saída de um túnel que nunca chega, só se torna mais e mais estreito. A mente se descola e se dissolve. A dor destrói a língua. Dói em todo lugar.” Em seguida, mais meses em branco, uma página rabiscada e depois isso: “Um cansaço me inunda e sinto meus ossos afundando nessa água pantanosa e meus pés ficam presos em plantas meio vivas meio mortas e não há lugar no qual eu possa deitar-me, tudo é água musgosa.” Busco a data e vejo que esse último trecho eu escrevi após a segunda rodada de Metotrexato, uma medicação imunossupressora. Eu me lembro, em rasgos de memória, que a medicação me fazia vomitar, mal conseguia ficar em pé, a pele queimava e não conseguia me deitar, pois meu corpo ficou coberto de feridas. Mas nada disso está visível nessas linhas, elas narram a incapacidade de escrever tamanha dor e não a dor em si.
A incapacidade de manipular palavras para me expressar foi um segundo ataque à minha dignidade humana, o primeiro foi a dor e a doença. Não esperava por ele. Elaine Scarry escreve em seu primoroso livro sobre dor e linguagem, The Body in Pain, “a dor física não só resiste à linguagem, mas ativamente a destrói, trazendo uma reversão imediata a um estado anterior à língua, uma reversão aos sons e choros que um ser humano emite antes da linguagem ser aprendida.” (Scarry, 1987, p.6) Ela nos explica que todas as outras sensações e sentimentos, especialmente os abstratos, têm um objeto externo ao qual se direcionam, amamos algo ou alguém, sentimos saudades de algo ou alguém, mas a dor física é essencialmente interna, ela resiste à objetificação verbal necessária para que seja possível dizer. O sofrimento psicológico permeia as páginas de todos os livros, mesmo que sintamos dificuldade em expressá-lo em certas circunstâncias, ele é por natureza referenciável e suscetível à objetificação verbal. Ao pensarmos no sofrimento físico, cru em sua inegável materialidade, nos deparamos com a dificuldade em encontrá-lo nas páginas dos livros. É uma obviedade inescapável para quem o sente e uma dúvida facilmente ignorada por quem não o sente. Simultaneamente uma experiência universal e a mais solitária de todas.
A dor reconhecida
A primeira vez que reconheci minha dor em algo para além de mim foi na música In the red, da artista experimental Jenny Hval. A música é curta, dois minutos e vinte segundos ao longo dos quais escuta-se a respiração acelerada de Jenny envolta por sons ritmicamente ansiosos, por passos e barulhos e, então, sozinha. A sensação é de um desespero angustiante e vermelho, a cor sugerida pelo título em um movimento sinestésico invade a música que, enfim, termina com uma única frase: “It hurts everywhere”. A segunda vez foi quando fui capturada por uma pintura de Frida Kahlo que já conhecia há anos, mas nunca realmente tinha sentido em meu âmago, O veado ferido, de 1946. Nela vê-se um autorretrato de Frida no qual seu corpo é o corpo de um veado atingido por lanças, vê-se o sangue e o mesmo desespero angustiante de In the Red inunda o olhar de Frida. A música e as artes visuais conseguiram transpor a clausura ontológica do sofrimento físico, ao fruí-las era possível mergulhar nas sensações de outrem e nelas encontrar as minhas indizíveis sensações e assim nossas dores se faziam compartilhadas.
O alívio foi imenso, pois a vida da pessoa doente e com dor é reduzida pelo único discurso autorizado a dizê-la, o discurso biomédico, que aliena a pessoa de seu próprio corpo e, na maioria das vezes, especialmente em relação às mulheres, recusa validar a enormidade de sua dor. Mas ainda faltava algo, faltava eu ser capaz de falar. Porém, a alienação começava a ser quebrada, a socialização da experiência da dor experimentada na fruição dessas obras começava a me transformar novamente em pessoa. Enfim, chegou a poesia. Lembro-me de ler o poema à meia-luz no livro Desglaç/Degelo, de Maria-Mercé Marçal, que eu acabará de ganhar, o que atraiu-me a ele foi a dedicatória “Homenagem a Frida Kahlo”:
De onde vem, de qual entranha, essa força,
se arrebenta as paredes da estrutura
que me centra, se estilhaça a coluna
de pedra que me vertebra? De onde, a força
que em gesso me molda, me solda, me escora
rigidamente, me encouraça de aço?
Pregos, agulhas me fixam a pele morta
sobre a carne acesa que não tolera o ar.
E através dos furos só sei já viver
nesse sangue que escapa além de mim.
(Marçal, 2019, p.69)
A poesia surgiu, então, dentro do universo da palavra como local privilegiado do reconhecimento da dor. Um caminho para a restauração da ponte com o mundo. E para quem está perdida, um caminho é tudo. Como escreve Jean-Luc Nancy, o caminho, a via, o acesso é o mais difícil; é qualidade essencial do acesso que seja difícil e é exatamente aquilo “que não se deixa fazer” (Nancy, 2013, p.417) que a poesia faz. Ana Cristina Cesar, no poema Fragmentos, refere-se à poesia como “aventura de registrar a fenda” (Cesar, p.360, 2013). Nos versos de Maria-Mercé Marçal em homenagem à Frida, a fenda registrada é a fenda de sentido causada pela dor. A poeta usa um artifício que Elaine Scarry reconhece como central na descrição da dor por pacientes aos seus médicos, imagens de armas, de objetos afiados e cortantes (Scarry, 1987, p.13). Como a dor física é visceral, tão inegavelmente interna que repele qualquer objetificação verbal, resta alocar a dor ela mesma em uma ferramenta que a infrinja. Pregos, agulhas, gesso, algo que estilhaça, algo que arrebenta as estruturas. E a poeta pergunta, até mais, ela clama por uma resposta à questão que toda pessoa que sofre repete desde início do mundo e provavelmente até o seu fim: Por que? Por que essa dor? Por que eu? De onde vem essa força? A pergunta reverbera no poema e, assim, ele é o acesso. Fez-se a ponte. “A dificuldade é posta, apresentada por aquilo que ela é e estamos empenhados nela” (Nancy, 2013, p.417).
A dor escrita
Em uma madrugada de 2019 eu escrevi o primeiro poema pós-adoecimento.
acordei tudo é dor
a mente explode
ahhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhh
explosões choques
talvez eu trema talvez eu chore
já não sei dizer o que acontece
colapso
não se diz
se chora se geme se grita
acordei pedaços de mim estão perdidos
grudados no lençol
não mais em mim
constelações de mim perdidas ao longe
sou feita de buracos
de faltas
me perguntei olhando no espelho meu corpo devastado
eu sempre li muito
uma densa educação sentimental
a dor
ah a dor destrói
o literal feito em carne
retorno da pessoa ao berço da humanidade
grito primordial que anuncia
estou viva
uma ilha
Estou viva! e sozinha
acordei senti levantei e lá estava a pele da minha bochecha direita grudada no travesseiro
eu gritei
tornei-me animal
para além
Se testemunhar essa reversão aos choros e gemidos que a dor opera é testemunhar a destruição da linguagem, inversamente, testemunhar a saída do estado de pré-linguagem, ao que a pessoa que sente a dor física consegue projetar os fatos da senciência na fala (ou na escrita), é testemunhar o nascimento da linguagem (Scarry, 1987, p.6,). Assim como eu havia presenciado a morte da linguagem, finalmente presenciei seu nascimento. Não sei se ela nasceu quando escrevi o poema ou quando o li num sarau feminista e uma das mulheres presentes me abraçou e disse "obrigada" molhando meu pescoço com suas lágrimas. Para quem sente a dor, ou o mundo é eclipsado ou a dor ela mesma se torna o mundo inteiro. Se a dor física destrói a catexia entre o corpo e o mundo (linguagem) — como então se escreve a dor? Na jornada do estado de pré-linguagem causado pela dor em direção ao renascimento da linguagem, ao expressar essa dor, que pontes auxiliam a peregrina? Para mim essa ponte foi a poesia.
Ela surgiu como local privilegiado dessa fala, dessa fala fresca e renascida daquela que visitou o escuro útero sem língua. Um local no qual a palavra ainda está próxima do silêncio e do grito originais. Um local no qual a intensidade da vida paralisa a palavra e paradoxalmente clama por ela. Empresto as palavras de Michel Collot para narrar — lindamente, poeticamente — esse nascimento:
O germe do poema reside frequentemente para mim em uma sensação ou uma emoção cuja intensidade me paralisa, e me corta a palavra. Interna ou externa, e mais frequentemente uma coisa e outra, ela me confronta com o duplo enigma da presença do mundo e da minha presença nele. No espanto de estar aí, desdobra-se um espaço ao mesmo tempo cósmico e cenestésico: aquele de meu corpo unido à carne do mundo, em uma espécie de empatia (Einfühlung), onde o interior e o exterior são indissociáveis. Somente depois, e às vezes ao termo de um longo período de esquecimento, na relembrança ou na ressurgência da memória involuntária, é que posso empreender a exploração desse espaço que escapa ao olhar e à palavra.
Para isso, convém que eu mergulhe às cegas na noite do corpo e na espessura da língua para reaprender a falar. Muito frequentemente as primeiras palavras se impõem a mim com a mesma força da sensação que elas tentam exprimir e da qual parecem inseparáveis, como tantos pequenos pedaços de matéria-emoção. Elas me dão a nota fundamental, onde ressoa a tonalidade afetiva que colore ao mesmo tempo a emoção, o mundo e as palavras. Mas para dar-lhe a ouvir e compreender, devo tentar desdobrar as harmônicas e os horizontes. É interrogando sua ressonância musical, afetiva e significativa ao mesmo tempo que tento decifrar a obscura mensagem da qual são portadoras. (Collot 2015, p.23-24)
Para dizer tchau tchau
Susan Sontag defendeu bravamente seu argumento contra metaforização da dor, do seu lugar de sofrimento físico causado por um câncer ela aconselhava a todas nós, habitantes do mundo da doença, como ela o chamava, a não cairmos na tentação de transformar nossa doença e o sofrimento proveniente dela em metáforas para outras coisas. Vejo em sua defesa um ímpeto de não permitir a relativização do sofrimento físico, sua diluição em jogatinas discursivas e também um desejo de se manter fiel a crueza da doença e da dor, pois aquilo que some no discurso, some da política e assim somem aquelas que sofrem.
Anos antes da publicação de A Doença como Metáfora, em 1965, ela já escrevia em seu diário: “Dor não pode ser convertida em outra moeda. Não existe moeda em que a dor pessoal possa ser convertida” (Sontag, 2016, p.152). Ela estava correta, a dor cessa a produção e, segundo Virginia Woolf, a doença carrega consigo a força de libertação das verdades que o mundo da saúde e dos supostamente saudáveis parece não ver (Woolf, 1964, p.17). A doença e a dor libertam a verdade de que no final somos todos animais de carne e sangue e osso e que o destino do corpo é inescapável, algo assustador em uma sociedade assolada pelo capitalismo avançado, na qual produtos ganham status de pessoa e pessoas são reduzidas à máquinas produtoras de lucro alienadas de si mesma e de seu trabalho. Lembro-me de outra coisa que, assim como as doentes, é dita inútil, a poesia. A dor não pode ser convertida em moeda, mas ela pode em sua extrema dificuldade surgir parecendo fácil em poesia. Desafiando o tempo e a lógica capitalista, desafiando a objetificação dos seres, desafiando os abismos de silêncio, fazemos poesia. A falta de vocabulário para expressar em palavras a dor resulta na invisibilidade de quem a sente, uma invisibilidade com consequências gravíssimas. Logo, expressar verbalmente a dor física é o prelúdio necessário para a tarefa coletiva de diminuir a dor no mundo (Scarry, 1987, p.9). Já prevejo o questionamento: “mas, através da poesia, o que se pode alcançar?” E respondo: um caminho.
Galera que eu citei
BENJAMIN, Walter. O Narrador: Considerações Sobre a Obra de Nikolai Leskov. In: Obras escolhidas I. Ed. Brasiliense, 2012
CESAR, Ana Cristina. Poética. São Paulo: Cia das Letras, 2013.
COLLOT, Michel. Poesia, paisagem e sensação. Rev. de Letras, n. 34, vol. 1, jan./jun. - 2015, pp. 17-26.
MARÇAL, Maria-Mercè. Desglaç/Degelo. Ed. Urutau, 2019.
NANCY, Jean-Luc. Fazer, a poesia. Tradução de Mauricio Mendonça Cardozo. Alea, Rio de Janeiro, vol. 15/2, 2013.
PORGE, Erik. A voz do eco. Mercado de Letras, 2014.
SARTI, Cynthia. Corpo e doença no trânsito de saberes. Rev. bras. ciênci. soc., São Paulo, v.5, 2010. Disponível em <http://socialsciences.scielo.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0102-69092010000100009&lng=en&nrm=iso>. Acesso em 28 Dec. 2020.
SCARRY, Elaine. The Body in Pain: The Making and Unmaking of the World. Oxford University Press, 1987.
SONTAG, Susan. Diários II: 1964-1980. Cia das Letras, 2016.
______________. Doença como metáfora / AIDS e suas metáforas. Rio de Janeiro: Cia das Letras, 2007.
WOOLF, Virginia. The moment and other Essays. London: Hogarth Press, 1964.