Bola na trave

Escrito na noite de 16 de Dezembro de 2025
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Ciniro Nametala

@ciniro

Ciniro é professor no IFMG - Campus Bambuí. Especialista em Inteligência Artificial. Escreveu o blog CINIRONET por mais de 20 anos. Hoje todos os seus textos estão no Livre Dia.

Quando fui chamado para fazer parte de um time de futebol pela primeira vez eu fiquei muito assustado. Eu adorava jogar bola com meus amigos no recreio, na rua e eu era bom ali. Já a enormidade verde do campo de futebol fazia com que eu me sentisse uma formiga, o gol pra mim era maior que uma casa. Como não tomar gol? Os coletes coloridos fazendo parecer que todos estavam preparados para uma pomposa festa de gala. Eu não era amigo da maioria dos meninos que jogavam no campo, alguns bem maiores do que eu. Eu tinha que provar meu valor ali pela primeira vez na vida e, por isso, o banco de reservas era o maior conforto que eu tinha naquele ambiente hostil, afinal, eu não queria provar nada pra ninguém. Eu torcia para nunca ser chamado para jogar no time que estava em campo. Lembro de um momento específico, desses poucos que resolveram me testar, eu não estava nem um pouco afim e quando tocaram a bola pra mim, eu pulei para que ela passasse por baixo. O técnico me tirou de campo na mesma hora, muito felizmente.

Ao final do primeiro treino eu fui embora aliviado e frustrado, eu já havia pegado a fama de ruim de bola e nada mais que fizesse dali pra frente, mesmo que eu me tornasse um Cristiano Ronaldo da vida, mudaria isso. A partir desse dia cheguei a ir em mais alguns treinos pois meus pais, tios e amigos queriam muito, mas eu não me sentia à vontade. Lá, o pior jogador de rua era melhor do que eu. E o melhor jogador de campo era tratado como um Deus pela molecada. Eu passava meu tempo no treino só ali sentado no banco, assistindo e refletindo, morrendo de medo de ser chamado.

Depois de uns anos o medo acabou que foi embora, eu tinha lido em alguns lugares que isso aconteceria, só que eu vivia num mundo de pouca perspectiva até então, eu não acreditava muito em nada, não acredito até hoje e talvez seja por isso. Quando aconteceu, aproveitei e resolvi tentar outra vez, não deu certo, aí tentei de novo e de novo, até que foi. O tempo passou e hoje sou jogador profissional, intimido todo mundo que vem jogar contra mim, alguns desistem antes só de conhecer a reputação, sou um craque às avessas e meu passe vale ouro. Certamente ainda estou longe de ser um Cristiano Ronaldo, que é um gênio do seu tempo, mas dou pro gasto no Brasil que é um país de futebol médio. Eu não tive muitas opções no fim das contas e só pude e tive a coragem de vestir a camisa quando o céu abriu, quando vi algumas nuvens. Deixando a humildade pra lá, se for levar em consideração todas as “trupicadas” que eu dei, penso que eu deva estar acima da média. Se as pedras não existissem quem sabe um Cristiano Ronaldo eu seria. Eu não penso muito nisso, pedras existem para todos e se elas não existissem também, o que seria desse hipotético mundo feito só de Cristianos Ronaldos?

É bom chegar em casa e ver a sua camisa de time dependurada no cabide do armário – é sua tribo, mas também é triste demais saber que nesse time jogam poucas pessoas, afinal, muitas quebraram as pernas “trupicando”, muitas ainda estão crescidas e sentadas no banco de reservas do time oficial assistindo e refletindo, muitas outras depois que o recreio acabou desistiram de jogar bola pra sempre. Algumas se tornaram jogadores do time oficial, ou até mesmo técnicos de futebol, mas elas sabem que não possuem muitas opções e só se entregaram. Os meninos titulares na maioria das vezes não têm muita noção do peso que essa camisa tem, como é difícil vesti-la. Acho que as categorias de base hoje vêm se aprimorando, apesar de que técnicos ruins e torcidas organizadas existem aos montes para atrapalhar.

Parece-me que o mundo do esporte está mudando apesar dos pesares. Acompanho os gols no Fantástico todo domingo. São poucos gols, ainda se vê muito mais bolas fora ou na trave, no entanto, diferente do meu recente tempo antigo, já não é mais visto como coisa bonita por aí ficar comparando times. E é claro, esse é um texto sobre sexualidade e não sobre futebol.


Fonte da imagem: Roger Baigorra Machado

Modo Foco

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Referência ABNT

NAMETALA, Ciniro. Bola na trave. Plataforma Livre Dia, 16 dez. 2025. Disponível em: <https://livredia.com.br/texto/740/>. Acesso em: 29 2026.

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